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Sócios Honorários

2011
Heloísa Santos
Maria Guida Boavida


2001
Rui Vaz Osório


1998 
Arnold Munnich 


Luís Archer
luisarcher

Luís Archer (1926-2011) introduziu o estudo e a investigação em Genética Molecular e Engenharia Genética no nosso país. Possuía três licenciaturas – teologia, filosofia e biologia. Enveredou pela Genética em obediência à orientação dos superiores da Ordem dos jesuítas a que, como padre, pertenceu. Era, na altura, assistente universitário de biologia. O próprio referiu numa entrevista “assim o decidiram contra vontade e gosto” por considerarem “necessária a presença da igreja” neste campo científico. A sua escolha pessoal da área de Genética Molecular foi “ feita na  previsão da evolução da ciência e carências em Portugal”. Doutorou -se em 1967 nos EUA. Em 1971, foi convidado a criar o Laboratório de Genética Molecular do Instituto Gulbenkian de Ciência, que dirigiu até 1989. Em 1975, criou o Laboratório de Genética Molecular do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar que coordenou até 1981. Foi também o primeiro Professor Catedrático  de Genética Molecular da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Participou na criação, e presidiu ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e foi pioneiro no desenvolvimento do pensamento bioético no nosso país. Era defensor da colaboração  entre a igreja e a ciência (tal como Francis Collins) embora sem confundir as duas diferentes perspetivas. Afirmava que “o meu conhecimento de  biologia tem-me salvo de interpretações erróneas ou supersticiosas da religião, assim como a minha posição religiosa me tem salvo de fazer da ciência um ídolo ou um absoluto”. Enfim, foi uma personalidade portuguesa ímpar que, como cientista e humanista, transmitiu a todos, com serenidade e inteligência, o seu vasto saber e com quem tivemos o gosto de muitas vezes contactar e a nossa sociedade de lhe prestar uma justa homenagem.

Texto: Heloísa Santos

1997 
Corino de Andrade 

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Mário Corino da Costa Andrade, nascido em Moura (10 junho 1906), nas vastas planícies alentejanas, sempre achou o ruído do mar perturbador e enfadonho. Foi o segundo filho de um veterinário nascido em Goa e uma dona de casa de Beja. Em 1929, completa o curso de medicina, em Lisboa. Ruma a Estrasburgo, onde estagia 6 anos com Barré: foi o primeiro não-francês a receber o prémio Déjerine (1933), pelos seus estudos em patologia das meninges; seria nomeado chefe do Laboratório de Neuropatologia da Fac. Medicina (1935). Em 1936, no Instituto Max Planck de Berlin, estuda neurologia e neuropatologia com Oskar e Cécile Vogt.

Regressado a Portugal em 1938, por doença de seu pai, não encontra aceitação em Lisboa. Egas Moniz aconselha-lhe o Porto, mas a Fac. Medicina também não o acolhe. Assume brevemente cargo de chefia no Hosp. Conde Ferreira. Em 1939, assina contrato sem vencimento com o Hospital de Santo António, cujas enfermarias percorre em busca de doentes do foro neurológico (aos fins de semana viaja até Lisboa para fazer neurocirurgia com Egas Moniz).

Nesse ano, observa uma doente poveira com uma “forma peculiar de neuropatia periférica”, que estuda longamente e prova ser uma amiloidose primária e nova entidade clínica. Cidadão empenhado e politicamente ativo, é nas prisões da PIDE (1951) que revê as “galley-proofs” para o Brain (1952). A doença tornar-se-ia conhecida como polineuropatia amiloidótica familiar (PAF) tipo I (Português, Andrade) ou paramiloidose. Contribuiu ainda, com Paula Coutinho, para a descrição da doença de Machado-Joseph (1976), ao reconhecer a unicidade de três ataxias dominantes descritas como entidades distintas.

Criou o Serviço de Neurologia do HSA, que dirige até aos 70 anos, onde iniciou os laboratórios/serviços de neuroquímica, neurofisiologia, neurorradiologia, neurocirurgia, reanimação respiratória e o Centro de Estudos da Paramiloidose. Foi ainda um dos fundadores do ICBAS, de que foi presidente do conselho científico nos seus anos ativos restantes.
Incapaz de dar respostas a todas as suas questões, considerava-se um homem de interrogações, como todos os verdadeiros cientistas. Pessoa de enorme visão, inspirou diversas gerações de clínicos e investigadores, e antecipou, como era sua marca, o papel atual da bioquímica e da genética.

Texto: Jorge Sequeiros


Marcus Pembrey
Marcus Pembrey

O Prof. Marcus Pembrey é um médico geneticista britânico que dirigiu a Unidade de Genética Pediátrica do Institute of Child Health de 1979 a 1998 tendo atingido o título de professor em 1986 e exerceu as funções de vice-diretor do Institute of Child Health de 1990 a 1998.

Logo em 1979, aquando da sua nomeação como diretor da Unidade de Genética Pediátrica do Institute of Child Health, e geneticista clínico, Honorary consultant, no Great Ormond Hospital for Children, em Londres, Reino Unido, selecionou como tema de investigação a genética não mendeliana. Dedicou-se inicialmente ao estudo da etiologia de doenças monogénicas como o síndrome do X frágil (para o qual propôs o conceito teórico da existência de pré-mutações, anos antes da descoberta e caraterização do gene FMR1) ou o síndrome de Angelman. Mais tarde orientou investigação em epigenética com particular relevância para o projeto “Avon Longitudinal Study of Parents and Children” que dirigiu até 2006.  

O Prof. Marcus Pembrey sempre valorizou a educação das populações, a necessidade de informar e sensibilizar as instituições governamentais para a relevância da genética humana, a  avaliação das repercussões sociais e éticas das descobertas científicas e a imprescindibilidade da colaboração internacional. Em 1992 foi co-fundador do Progress Educational Trust do qual foi presidente quase sem interrupção até 2014; foi nomeado consultor do Chief Medical Officer, Departamento de Saúde do Governo Britânico, de 1989 a 1998; participou ativamente na Sociedade Europeia de Genética Humana e foi co-fundador da International Federation of Human Genetics Societies. Foi Presidente da Sociedade Europeia de Genética Humana em 1994 e1995, presidiu ao Committee on Ethical Issues (redenominado Public and Professional Policy Committee) de 1994 a 1998 e de 1996 a 2001 representou esta sociedade científica na International Federation of Human Genetics Societies.

Tive o privilégio de trabalhar diariamente com o Prof. Marcus Pembrey em 1990 e 1991: uma pessoa de inteligência arguta, fascinada pela genética, continuamente interessada em conceitos e teorias que explicassem as aparentes exceções; simpática, acolhedora e determinada em facilitar o treino em genética, médica ou laboratorial, a quem para isso estivesse preparada e motivada mas dando atenção especial a Portugal.

Texto: Jorge M. Saraiva

1996 
Amândio Tavares

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Amândio Gomes Sampaio Tavares licenciou-se em Medicina em 1952, no Porto, onde nasceu. Lembrava que durante os seus estudos teve apenas duas aulas sobre genética, uma sobre grupos sanguíneos e outra sobre cromossomas e hereditariedade mendeliana. Tornou-se assistente de patologia e começou a trabalhar precisamente com grupos sanguíneos. Como gostava de recordar, foi logo em 1952 que, a pedido do bispo de Viseu, fez o primeiro teste de exclusão de paternidade baseado no Rh e ABO. No ano seguinte, estudou a cromatina de Barr em teratomas – “o sexo do cancro” (Lancet, 1955). Estes estudos levam-no a ser convidado para uma reunião sobre cromatina sexual, em Londres (1957), onde conhece Polani e Anders, com quem viria a estabelecer importantes colaborações.

Em 1958, defende a sua tese de doutoramento na patologia da glândula mamária masculina. No mesmo ano, inicia culturas celulares e, em 1959, realiza o primeiro cariótipo humano a partir de sangue periférico, que o conduziriam ao estabelecimento da prática da genética clínica e do aconselhamento genético em Portugal.

Os seus muitos interesses científicos incluiriam ainda, entre outros, a genética das populações humanas e a evolução, a genética matemática e estatística, a informática médica (o seu Wang 2200 foi “o primeiro computador com ecrã” no Porto), o planeamento familiar, a genética da reprodução, a biologia social e a bioética.

Amândio S. Tavares cria, em 1977, a primeira disciplina de Genética Médica, na Fac. Medicina do Porto (e já antes, em 1970, como parte da Patologia Geral). Foi membro da Academia de Ciências de Lisboa e da World Academy of Art and Science. Foi o primeiro sócio honorário da SPGH (em 1996).

Recebe e orienta ou influencia, entre tantos outros, os pediatras que viriam a iniciar os primeiros serviços de genética médica em Lisboa e Porto, embora ele próprio nunca tenha chegado a ver reconhecido o serviço do seu hospital (a consulta externa do HSJ seria oficializada apenas em 1985). Amândio Tavares foi de facto o pai fundador da Genética Médica/Clínica em Portugal. Mas, como dizia, com a sua notória modéstia, “O que vale é que, como de costume, eu sou o primeiro a rir-se de mim mesmo: nunca me levei muito a sério…”.

Texto: Jorge Sequeiros